Administradores dos bens do Senhor (19 º Domingo do Tempo Comum)

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Bens

1. INTRODUÇÃO

Na primeira leitura, o Livro da Sabedoria faz memória da noite da libertação do povo de Israel da escravidão do Egito. Esta memória se atualiza ao longo da história por meio da liturgia pascal. Fazer memória é dizer bem de Deus (bendizer) e ter em conta que, se Deus se fez visível no passado, continuará a fazê-lo no presente e no futuro, porque Deus é o Senhor da história.

Na chamada carta aos hebreus a fé é definida como: “segurança do que se espera, e prova do que não se vê”, a partir da figura de Abraão e as pessoas relacionadas a ele. A fé é, portanto, colocar-se a caminho como o fez o patriarca e obedecer a Deus que se revela na história através dos acontecimentos. Graças à fé – que é também um ato humilde de escuta – se pode contemplar a Deus atuando na própria vida e
enchendo-a de graças e bênçãos.

2. EVANGELHO

Esta passagem do evangelho é a continuação imediata do fragmento proposto pela liturgia da Igreja do domingo anterior. Jesus é interceptado por uma pessoa que lhe pede em meio da multidão que a ajude para que seu irmão divida com ela a herança familiar. A partir desta situação o Senhor aproveita para realizar uma exortação sobre os bens e a relação do homem com o dinheiro. Especialmente é denunciado com destaque o pecado da ganância, que faz raízes no coração humano.

Os apóstolos ficam perplexos com a parábola utilizada pelo Senhor para explicar este problema da ganância, por isso o parágrafo seguinte começa dizendo: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”, ainda assim os exorta a desprender-se dos bens – vendê-los para dar esmola e ajudar aos outros – para adquirir um tesouro no céu: “Vendei vossos bens e dai esmola; fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.

Tende cingida a cintura e as lâmpadas acesas”, esta frase a mentalidade bíblica indica estar atentos e prontos para atuar, em outras palavras, se refere à vigilância que caracteriza o seguidor de Cristo. Na cintura estão os rins que são a sede das paixões, por isso em outras traduções aparece mencionado esse órgão do corpo humano (tende os rins cingidos). Qual é a função dos rins? Entre outras coisas, é filtrar o sangue de elementos nocivos que possam prejudicar o corpo humano. Mas, sobretudo, cingir a cintura significa algo muito simples: já que as túnicas usadas pelas pessoas daquela época eram folgadas, era inevitável apertá-las para poder realizar qualquer atividade, portanto, se cingia para servir ou “colocar-se a caminho” (Ex 12,11). Já as lâmpadas – que se mantinham acesas com boas reservas de azeite, basta recordar a parábola das dez virgens (Mt 25,1ss) – se referem à luz que deve estar disponível para poder enxergar bem em meio da escuridão. Que interpretação podemos dar a isto? Ter “cingida a cintura” é vigiar as paixões com a luz da fé. Que são as paixões? Na Tradição da Igreja – filosofia escolástica – são todos os sentimentos desordenados que acompanham a natureza inclinada para o mal pelo pecado do homem. O que é a lâmpada? É a Igreja que brilha sendo o corpo de Cristo através do dom da fé. Concluindo, esta frase quer dizer: estar vigilantes para que a fé continue iluminando a vida e as sombras do pecado não escureçam o espírito.

Na continuação, o Senhor apresenta algumas imagens que compõem duas parábolas relacionadas com o mesmo tema, mas com um enfoque escatológico: o porteiro – que aparece de forma implícita – com os servos e o administrador. A escatologia é a área da teologia que estuda as realidades últimas da história do cosmos e da vida do homem. Nas reflexões do Senhor, estas imagens são apresentadas na perspectiva da chegada do Filho do Homem que é outra forma de referir-se ao mistério da morte, a porta que nos abre e introduz na presença de Deus que é a realidade absoluta.

O porteiro deve estar atento para abri-la ao seu senhor ao voltar das bodas. Na linguagem dos profetas, a relação de Deus com seu povo se descreve de uma forma nupcial e em outras parábolas de Jesus, aparece esta mesma imagem para indicar a manifestação definitiva do messias – o reino de Deus – através de sua pessoa.

Os servos devem servir e estar atentos à chegada de seu Senhor para colocar-se à sua disposição, mas por estarem atentos serão surpreendidos, já que o mesmo senhor lhes fará sentar-se à mesa e lhes servirá. O importante é que estejam “preparados” para receber a seu senhor. Assim também debe ser o cristão na precariedade da vida, porque o ladrão – símbolo do maligno – e o Filho do homem não avisam ao chegar, já que o primeiro faz dano ao entrar para roubar, porque não havia suficiente vigilância e o segundo surpreende e dá um sentido definitivo à existência humana mudando o rumo das coisas.

O administrador é contratado para ser fiel e solícito à frente de seu serviçal e cuidar deles enquanto seu senhor se ausenta. Este administrador se se comporta bem e desempenha sua missão de acordo com o previsto será premiado participando de todos os bens de seu senhor, mas se se aproveita da espera para maltratar os servos e viver de forma desenfreada, será despedido e condenado.

A conclusão da passagem do evangelho deixa claro o resultado de um aspecto fundamental da liberdade humana, ou seja, o livre arbítrio: “Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. Porém o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”. Isto simplesmente quer dizer que recebemos segundo nossas obras e conforme a consciência ou não do que temos recebido. Nossa “sorte definitiva” é determinada pelo que temos recebido e como o temos administrado.

 

3. ATUALIZAÇÃO CATEQUÉTICA

Qual é o fio condutor dessa passagem do evangelho? Para poder entender a mensagem profunda do fragmento proposto pela Eucaristia dominical, partimos de nosso combate sobre a relação com o dinheiro, que nasce do discernimento sobre o fim da vida e na sã consciência de que somente somos servos e administradores do Senhor.

A sabedoria para ter uma relação cristã com os bens e o dinheiro, o discernimento na vida e a consciência de que somos simples administradores somente se adquire se vigiarmos com atenção (como porteiros), servirmos desempenhando nossa missão (como servos) e administrarmos os bens que nos foram confiados pelo Senhor (como bons administradores).

A imagem do porteiro nos lembra da função desta figura, estar atentos para ver quem entra e quem sai de um determinado lugar; sua maior característica é a vigilância. Vigiar é uma ação que implica muita observação e cuidado com o que se deve fazer. Para a fé cristã a vigilância é uma virtude que se refere à prática da oração, a alimentar e preservar a fé e a cuidar o coração do pecado. Quantas impurezas entram em nosso coração: idolatrias, desejos libidinosos, sentimentos desordenados? Alimentamos pensamentos tóxicos que nos contaminam e não nos deixam respirar, por isso somos chamados a estar atentos e combater contra o maligno, o mal e o pecado.

A imagem do servo nos recorda que sua função é somente servir e estar atento para o que necessite seu senhor. Esta imagem se complementa com outra do evangelho de Lucas, ao final os servos deveriam dizer com humildade e simplicidade: “somos servos inúteis, temos feito só o que devíamos fazer” (17,10), ou seja, sem ter grandes pretensões, sem esperar nada em troca e sem querer o reconhecimento, homenagens e muito menos o louvor. Quantas vezes fazemos públicas as coisas boas que realizamos para esperar o reconhecimento dos outros? Em quantas ocasiões servimos em silêncio e no mais absoluto anonimato? O que é que nos motiva a servir e fazer o bem?

A imagem do administrador nos recorda uma função muito simples e complexa ao mesmo tempo: uma determina pessoa é contratada para cuidar dos bens de seu dono, depende, portanto, de sua fidelidade e seriedade para que sua missão tenha bons resultados. Isto quer dizer que os cristãos somos simples administradores de bens espirituais, afetivos e materiais. Em primeiro lugar, estão os bens espirituais que são todas as graças que recebe um fiel batizado, quer dizer, o evangelho, a comunidade eclesial, a fé, os sacramentos, etc. Como recebemos esses dons? Como nos relacionamos com eles? E como os transmitimos? Em segundo lugar, estão os bens afetivos que são todas as relações que temos com as pessoas que fazem parte de nossa família e que estão ao nosso redor. Somos livres afetivamente? Relacionamo-nos amando-nos no Senhor? Ou somos escravos ou indiferentes às pessoas que fazem parte de nossa vida? Finalmente, estão os bens materiais que são as coisas (só coisas!) adquiridas pelo dinheiro através do trabalho. A providência nos confiou estes bens para que vivamos com dignidade e como filhos de Deus. “Ter dinheiro para viver e não viver para ter dinheiro”, esta deveria ser a máxima que permanece como a lição de Jesus acerca do dinheiro nos evangelhos. Somos livres com o dinheiro? Acumulamos com ganância porque o dinheiro é o mais importante que podemos ter? Ou usamos o dinheiro para ajudar os outros?

O Senhor pela força da Palavra e dos sacramentos nos alimente para reavivar nossa fé, e por meio do Espírito Santo nos dê o dom do discernimento e da vigilância para seguir seus passos, viver a novidade libertadora do evangelho e sermos testemunhas de seu amor em meio aos homens.

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AUTOR: Pe. Carlos Fernando Hernandez Sánchez (Mestre e Doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma e professor do Seminário Arquidiocesano em Brasília-DF))

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