“Homem e Mulher os criou: para uma via de diálogo sobre a questão de ‘gender’ na educação”

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Um instrumento para abordar o debate sobre a sexualidade humana e os desafios que emergem da ideologia “gender”, em um tempo de emergência educacional. Este é o documento PARA UMA VIA DE DIÁLOGO SOBRE A QUESTÃO DO GENDER NA EDUCAÇÃO, assinado pelo Cardeal Giuseppe Versaldi, Prefeito da Congregação para a Educação Católica, e pelo Arcebispo Vincenzo Zani, secretário do Dicastério.

Foi publicado nesta segunda-feira o novo documento da Congregação para a Educação Católica Homem e Mulher os criou. Para uma via de diálogo sobre a questão de “gender” na educação.

Segundo o Prof. Roberto Zappalà, diretor do Instituto Gonzaga de Milão  esse documento se apresentada como uma valiosa contribuição adicional de reflexão (que vai se acrescentar a outros elaborados em precedência) útil para “orientar e apoiar os envolvidos na educação das novas gerações” (n. 5). O foco do documento é certamente sobre uma das “questões mais debatidas sobre a sexualidade humana hoje”, a questão do “gender” (gênero) na educação, como já mencionado no título.

No entanto, a reflexão articulada no documento assume um âmbito mais amplo: a “emergência educativa”, que enfrentamos e que nasce de uma sociedade e de uma cultura cada vez mais pobres em evidência e valores compartilhados, parece agora unir tantos jovens em formação como os adultos que devem educá-los na mesma percepção de viver como “abalados pelas ondas e levados aqui e ali por qualquer vento de doutrina” (Ef/4, 14). Esta emergência denota – nas palavras do Papa Bento XVI – uma verdadeira “carência antropológica”, que tende a nos fazer esquecer que a pessoa humana “é um ser integral e não uma soma de elementos que podem ser isolados e manipulados segundo à própria vontade”.

Diante dessa carência antropológica que determina a “desorientação antropológica que caracteriza difusamente o clima cultural de nosso tempo” (n. 1), a Igreja, com este novo documento, assume e convida a assumir uma atitude de escuta, de reflexão e de proposta para “empreender a via do diálogo sobre a questão do “gender” na educação” (n. 6). E é precisamente por esta razão que o documento está dividido em três seções:

Ouvir nºs 8-23; Refletir, nºs 24-29; Propor, nºs 30-51:

1. OUVIR: O documento propõe uma série de pontos de encontro, como “a educação de crianças e jovens para respeitar cada pessoa em sua condição particular e diferente, para que ninguém, devido às suas condições pessoais (deficiência, origem, religião, tendências afetivas, etc.) possa se tornar objeto de assédio, violência, insultos e discriminação injusta”.

“Outro ponto de crescimento na compreensão antropológica são os valores da feminilidade que foram destacados na reflexão de gender“.

No entanto, também propõe várias críticas, como o fato de que, especialmente as teorias mais radicais da ideologia de gênero indicam “um processo progressivo de desnaturalização ou distanciamento da natureza rumo a uma opção total para a decisão do sujeito emocional”.

“Com esta atitude, a identidade sexual e a família se convertem em dimensões da ‘liquidez’ e ‘fluidez’ pós-modernas: fundamentadas mais sobre uma mal entendida liberdade do sentir e do querer do que na verdade do ser; no desejo momentâneo do impulso emocional e na vontade individual”.

“Os pressupostos dessas teorias são atribuíveis a um dualismo antropológico: à separação entre corpo reduzido e matéria inerte e vontade que se torna absoluta, manipulando o corpo como lhe agrada”, assinala o documento.

Essa ideologia “induz projetos educacionais e pautas legislativas que promovem uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente livre da diferença biológica entre homens e mulheres”.

2. REFLETIR: No documento, apresentam uma série de “argumentos racionais que esclarecem a centralidade do corpo como um elemento integral da identidade pessoal e das relações familiares”. Recorda que, “do ponto de vista genético, as células do homem (que contêm os cromossomos XY) são diferentes das mulheres (cujo equivalente é XX) desde a concepção”. O processo de identificação da pessoa “se vê obstaculizado pela construção fictícia de um ‘gênero’ ou ‘terceiro gênero’. Desta maneira, a sexualidade se escurece como uma qualificação estruturante da identidade masculina e feminina. A tentativa de superar a diferença constitutiva do homem e da mulher, como acontece na intersexualidade ou no transgender, conduz a uma ambiguidade masculina e feminina, que pressupõe de maneira contraditória aquela diferença sexual que se pretende negar ou superar”

O documento apresenta ainda uma reflexão sobre os aspectos da “liquidez e fluidez pós-moderna” (n. 19)subordinados à ideologia do “gender” que levam a propor, em nível antropológico, “uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculada da diferença biológica entre masculino e feminino. A identidade humana é entregue a uma opção individualista, mutável com o tempo, expressão do modo de pensar e agir, hoje difundido, que confunde “a liberdade genuína com a ideia de que cada um julga como lhe parece, como se, para além dos indivíduos, não houvesse verdades, valores, princípios que nos guiam, como se tudo fosse igual e tudo se devesse permitir” (n. 22);

3. PROPOR: Finalmente, o Documento aborda a introdução da ideologia de gênero na educação e assinala que, “sem uma explicação satisfatória da antropologia na qual se baseia o significado da sexualidade e da afetividade, não é possível estruturar adequadamente uma via educativa que seja coerente com a natureza do homem como pessoa, a fim de orientá-lo ao pleno desenvolvimento de sua identidade sexual no contexto da vocação ao dom de si mesmo”.

O primeiro passo para este esclarecimento antropológico consiste em “reconhecer que o homem também possuiu uma natureza que ele deve respeitar e que não pode manipular como lhe apetece”. Explica que “a antropologia cristã tem suas raízes na narração das origens tal como aparece no livro de Gênesis, onde está escrito que ‘Deus criou o homem à sua imagem […] homem e mulher os criou’. Nestas palavras, há o núcleo não só da criação, mas também da relação vivificante entre o homem e a mulher, que os coloca em íntima união com Deus”.

Defende que “é necessário reafirmar a raiz metafísica da diferença sexual: de fato, o homem e a mulher são as duas formas nas quais se expressa e realiza a realidade ontológica da pessoa humana”.

“Esta é a resposta antropológica à negação da dualidade masculina e feminina a partir da qual a família é gerada. A rejeição dessa dualidade não apenas apaga a visão da criação, mas delineia uma pessoa abstrata que depois escolhe para si, autonomamente, uma ou outra coisa como sua natureza”.

Destaca que “a família é o lugar natural onde esta relação de reciprocidade e comunhão entre o homem e a mulher encontra o seu pleno desempenho”. Enfatiza que na família “se fundamentam dois direitos fundamentais, que devem sempre ser respaldados e garantidos”.

“O primeiro é o direito da família a ser reconhecida como o principal espaço pedagógico primário para a formação da criança.”

O segundo direito “é o da criança crescer numa família, com um pai e uma mãe capazes de criar um ambiente ideal para o seu desenvolvimento e maturidade afetiva. Continuar amadurecendo em relação, em confrontação, com o que é a masculinidade e feminilidade de um pai e uma mãe, e assim armando a sua maturidade afetiva”.

Da leitura global deste novo documento da Congregação para a Educação Católica emerge claramente que a Igreja olha para a “questão do ‘gender’ na educação” na perspectiva mais ampla do comum compromisso de construir uma convivência social que, como já auspiciara o Concílio, sempre mais “respeite a dignidade, a liberdade e os direitos das pessoas”. E é precisamente na perspectiva deste compromisso comum que a Igreja deseja não só abrir “uma via de diálogo”, mas também tornar-se um “espaço de diálogo” com as instituições culturais, sociais, políticas e com todos os homens, mesmo com aqueles que não partilham a fé cristã, mas “têm o culto de altos valores humanos.

Neste diálogo, a Igreja participa com a convicção de que cada interlocutor “tem algo de bom a dizer” e que, portanto, é necessário “dar espaço ao seu ponto de vista, à sua opinião, às suas propostas, sem cair, obviamente, no relativismo”. E precisamente por isso, como “perita em humanidade”, a Igreja quer oferecer a todos “o que possui por si mesma: uma visão global do homem e da humanidade“, convencida de que só um diálogo aberto e respeitoso, enfrentado sem medo nem radicalismo ideológico, pode contribuir verdadeiramente para uma compreensão mais profunda da sexualidade humana.

FONTE: Vatican News

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