Estamos no período da Quaresma e muitos fiéis ainda possuem dúvidas sobre o assunto. Para responder aos possíveis questionamento, listamos 12 coisas que você certamente precisaria saber pra viver com inteireza e profundidade esse tempo litúrgico. 

1. AFINAL, O QUE É A QUARESMA?

Chamamos Quaresma – do latim “Quadragesima” – o período privilegiado de preparação de quarenta dias para a Páscoa do Senhor. Na Igreja Antiga, este era o tempo no qual os catecúmenos (pessoas que se preparavam para receber o Batismo) participavam da primeira “parte da Santa Missa” (liturgia da Palavra) e se retiravam durante a liturgia Eucarística para receberem as últimas  formações a respeito da vida cristã. Os catecúmenos deveriam entregar-se a uma catequese mais intensa e aos exercícios de oração e penitência. Pouco a pouco, todos os cristãos começaram a participar também deste clima, tanto para unir-se aos catecúmenos, como para renovar em si a graça de seu próprio batismo, preparando-se para a santa Páscoa, na qual, na Santa Missa da Páscoa, faziam esta renovação. A Quaresma dentro da tradição bíblica tem um grande e profundo signficado, pois o número 40 nas Sagradas Escrituras está inserido num contexto das Alianças:

Por 40 dias e 40 noites, Deus fez cair o dilúvio sobre a terra (Gn 7,12). ⇒ Aliança com Noé.

Por 40 dias e 40 noites, Moisés ficou no monte do Sinai para receber de Deus a Lei (Ex 24,18). ⇒ Aliança com Moisés;

Por 40 anos, o povo de Israel se fez peregrino pelo deserto sinaítico até entrar na Terra Prometida (Dt 8, 2-5) ⇒ Aliança com Israel

Por 40 dias e 40 noites, Jesus ficou em jejum no deserto e depois foi tentado pelo demônio no deserto (Mt 4, 2). ⇒ preparação para Nova e Eterna Aliança em Jesus. 

2. QUANDO SE INICIA E QUANDO SE ENCERRA A QUARESMA?

Na tradição litúrgica da Igreja, a Quaresma inicia-se na Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Quinta-feira Santa na missa do lava pés, como determinou o Papa Paulo VI na Carta Apostólica aprovando as Normas Universais do Ano Litúrgico e o novo Calendário Romano Geral, onde no nº 28 diz: “O tempo da Quaresma vai de Quarta-feira de Cinzas até a Missa na Ceia do Senhor (Quinta-feira santa, à tarde), exclusive”. E também a Paschalis Solemnitatis nº 27 da Congregação do Culto Divino de 1988, que diz:

O tempo quaresmal continua até à Quinta-feira Santa. A partir da missa vespertina “in Cena Domini” inicia-se o Tríduo Pascal, que abrange a Sexta-feira Santa “da Paixão do Senhor” e o Sábado Santo, e tem o seu centro na Vigília Pascal, concluindo-se com as vésperas do Domingo da Ressurreição.

3. DESDE QUANDO SE VIVE A QUARESMA?

Desde o século IV se manifesta a tendência para constituí-la no tempo de penitência e de renovação para toda a Igreja, com a prática do jejum e da abstinência. Conservada com bastante vigor, menos em um princípio, nas igrejas do oriente, a prática penitencial da Quaresma vem sido cada vez maior no ocidente, mas deve se observar um espírito penitencial e de conversão. O historiador Sócrates informa que já no século V, a Quaresma durava seis semanas em Roma, sendo três semanas dedicadas ao jejum: a primeira, a quarta e a sexta. Já no século IV a “Peregrinação de Etéria” fala de um jejum de oito semanas praticado pela comunidade de Jerusalém, excluídos os sábados e domingos; o que totaliza os 40 dias de jejum. No tempo de São Gregório Magno (590-604), Roma observava os 40 dias da Quaresma.

4. POR QUE VIVEMOS A QUARESMA NA IGREJA CATÓLICA?

“A Igreja se une todos os anos, durante os quarenta dias da Grande Quaresma, ao Mistério de Jesus no deserto” ( Catecismo da Igreja Católica, nº 540).

5. QUAL É, PORTANTO, O ESPÍRITO DA QUARESMA?

Deve ser como um retiro espiritual de 40 dias, durante os quais a Igreja, propondo a seus fiéis o exemplo de Cristo em seu retiro no deserto, se prepara para a celebração das solenidades pascoais, com a purificação do coração, uma prática perfeita da vida cristã e uma atitude penitencial.

6. O QUE É A PENITÊNCIA?

A penitência, tradução latina da palavra grega que na Bíblia significa a CONVERSÃO (literalmente a mudança do espírito, da mentalidade) do pecador, designa todo um conjunto de atos interiores e exteriores dirigidos a reparação do pecado cometido, e o estado de coisas que resulta dele para o pecador. Literalmente mudança de vida, se diz do ato do pecador que volta para Deus depois de haver estado longe Dele, ou do incrédulo que alcança a fé.

“Mas o Senhor é paciente; façamos, pois, penitência por isso e peçamos-lhe perdão com lágrimas nos olhos” (Judite 8, 14) 

“Agindo desta maneira, mostrastes a vosso povo que o justo deve ser cheio de bondade, e inspirastes a vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência” (Sb 12, 19)  

“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.” (Mc 1, 15)

7. QUAIS SÃO AS PRÁTICAS PENITENCIAIS MAIS COMUNS?

“A penitência interior do cristão pode ter expressões muito variadas. A Escritura e os Padres insistem sobre tudo em três formas: o JEJUM, a ORAÇÃO, e a ESMOLA, que expressam a conversão com relação A SI MESMO, com relação A DEUS e com relação AOS OUTROS. Junto a purificação radical operada pelo Batismo ou pelo martírio, citam, como meio de obter o perdão dos pecados, os esforços realizados para reconciliar-se com o próximo, as lágrimas de penitência, a preocupação pela salvação do próximo, a intercessão dos santos e a prática da caridade “porque a caridade cobre a multidão dos pecados” (1 Pedro 4,8).” (Catecismo Igreja Católica, n. 1434).

8. SOMOS OBRIGADOS A FAZER PENITÊNCIA?

“Todos os fiéis, cada um a seu modo, estão obrigados pela lei divina a fazer penitência; não obstante, para que todos se unam em alguma prática comum de penitência, se fixaram uns dias de penitência para os fiéis que se dedicam de maneira especial a oração, realizam obras de piedade e de caridade e se negam a si mesmos, cumprindo com maior fidelidade suas próprias obrigações e, sobretudo, observando o jejum e a abstinência.” (Código de Direito Canônico, c. 1249).

9. EM QUE CONSISTE O JEJUM E O QUE É A ABSTINÊNCIA??

O JEJUM consiste em fazer uma única refeição ao dia, sendo que se pode comer algo menos que o de costume pela manhã e a noite. Não se deve comer nada entre os alimentos principais, salvo em caso de doença. “Se obriga a viver a lei do jejum, todos os maiores de idade até os 60 anos começados. A lei da abstinência se obriga aos que já tem 14 anos”. (Código de Direito Canônico, c. 1252). Se chama ABSTINÊNCIA a proibição de comer carne (vermelha ou branca e seus derivados). A lei da abstinência proíbe, portanto, o uso de carne, mas não o uso de ovos, produtos lácteos e qualquer tempero com base na gordura animal. (Paenitemini, III, I). 

10. QUAIS SÃO OS DIAS E TEMPOS PENITENCIAIS?

“Na Igreja Católica, são dias e tempos penitenciais todas as Sextas-feiras do ano e o tempo de quaresma.” (Código de Direito Canônico, c. 1250).

11. POR QUE SE DIZ QUE A QUARESMA É UM “TEMPO FORTE” E UM “TEMPO PENITENCIAL”?

“Os tempos e os dias de penitência no decorrer do Ano Litúrgico (tempo da Quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Estes tempos são particularmente apropriados para os exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações em sinal de penitência, as privações voluntárias como o jejum e a esmola, a partilha fraterna (obras caritativas e missionárias).” (Catecismo Igreja Católica, n. 1438).

12. COMO DEVE SER AS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS NO TEMPO QUARESMAL?

“Na Quaresma não se colocam flores no altar e o som dos instrumentos é permitido só para sustentar o canto, no respeito da índole penitencial deste tempo. De igual modo, o Glória não é cantado ou rezado, omite-se o Aleluia em todas as celebrações, desde o início da Quaresma até a Vigília Pascal, também nas solenidades e nas festas, (com a exceção do dia de São José, quando ocorrer). Nas celebrações eucarísticas e também nos pios exercícios, sejam escolhidos cânticos adaptados a este tempo e correspondentes, o mais possível, aos textos litúrgicos. Sejam favorecidos e impregnados de espírito litúrgico os pios exercícios de acordo com o tempo quaresmal, como a Via-sacra, para com mais facilidade conduzir os ânimos dos fiéis à celebração do mistério pascal de Cristo. No IV domingo da Quaresma (“Laetare”) e nas solenidades e festas permite-se o som dos instrumentos, e o altar pode ser ornado com flores. E neste domingo podem ser usados os paramentos de cor rósea, ao contrário dos outros dias que as vestes e os paramentos usados são da cor roxa. (Carta Circular  da Congregação para o Culto Divino sobre a Celebração das Festas Pascais.)

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