[Nota: esse é o primeiro de uma série de quatro artigos acerca da “Jubilosa Verdade Sobre o Celibato”. Os próximos três artigos se constituem em aprofundamentos dos principais aspectos desta postagem, e serão extraídos do livro de Christopher West, “Teologia do Corpo para Iniciantes: Redescobrindo o Significado da Vida, Amor, Sexo e Gênero”]


Por causa de algumas recentes revelações de condutas abomináveis de alguns membros da Igreja Católica, estamos mais uma vez ouvindo que “permitir que os padres se casem” é o meio mais fácil de resolver o problema.  Parece que pensar de outra forma é o mesmo que fazer como um avestruz e enterrar a cabeça na areia.

É verdade que a prática da Igreja de rito latino de reservar o celibato aos padres ordenados é passível de mudança. As Igrejas Católicas Orientais tem padres casados validamente, e alguns padres casados de outras denominações, convertendo-se ao catolicismo, podem ser validamente ordenados até mesmo no rito latino.

Então, se alguém pergunta: “Por que os padres não podem se casar?”, a verdadeira resposta é que sim, eles podem. Contudo, por uma boa razão, os padres no ocidente são normalmente escolhidos entre aqueles homens que descobriram o celibato como sua vocação.

O testemunho de uma vida celibatária saudável tem um valor imenso, ainda que ele pareça inteiramente perdido no redemoinho da atual crise sexual. De modo mais simples, é o testemunho de uma liberdade sexual autêntica. A liberdade sexual, como a Igreja Católica sempre entendeu, não é uma liberação indulgente com as nossas compulsões; mas é a liberação da compulsão em se indulgenciar. Só quem é livre neste sentido é capaz de amar, fazendo um dom de si tanto no matrimônio quanto no celibato. Sempre que estivermos aprisionados aos nossos impulsos, trataremos os outros não como sujeitos (como pessoas), mas como meros objetos para nossa própria gratificação.

Muitas paróquias, escolas católicas e seminários fizeram um mau trabalho no modo como guiaram aqueles que estão sob seus cuidados em direção a uma autêntica liberdade sexual, e sobre como esta deve ser vivida em qualquer estado de vida ou vocação. Por sua vez, o entendimento errôneo sobre o que é liberdade sexual penetrou nas mentes de muitas pessoas dentro da Igreja, incluindo seus clérigos, motivo pelo qual tanto os casados quanto os celibatários estão num estado de profunda crise. Sem um vibrante chamado à autêntica liberdade sexual, tanto o matrimônio cristão, quanto o celibato cristão, passam a ser profundamente incompreendidos e mal vividos: o casamento se torna uma “legítima escapatória” para as compulsões sexuais, e o celibato, uma vida de desesperançada repressão.

É por isso que a ideia de que o casamento é a solução para os escândalos sexuais dos padres é tão incorreta. Casar-se, única e exclusivamente, não cura desordens sexuais. Se um padre, ou qualquer outro homem, estivesse para adentrar ao matrimônio com desordens sexuais profundamente arraigadas, ele estaria condenando a sua esposa a uma vida de objetificação sexual. A única forma de colocar um fim nos escândalos sexuais (envolvendo padres ou não) é fazer com que as pessoas aprendam a expor suas feridas sexuais ao poder redentor que flui da morte e da ressurreição de Cristo, enquanto meio para uma autêntica liberdade sexual.

O celibato e o casamento cristãos estão muito mais interligados do que a maior parte das pessoas pensa. De fato, a fim de entendermos o valor do celibato, devemos primeiro entender o valor do matrimônio. Por que? Porque a Igreja baseia o valor de um sacrifício no valor daquilo que é sacrificado. Por exemplo, não faria nenhum sentido que eu abrisse mão de fumar na Quaresma. O cigarro não tem nenhum valor para mim.

A Igreja dá um valor tão grande ao celibato justamente porque ela dá um valor tão grande ao que é sacrificado – a união dos sexos. Na visão católica, a união do homem e da mulher “em uma só carne” é uma prefiguração sagrada da união eterna que nos espera no Céu (confira Ef 5, 31-32). Deus nos deu o desejo sexual, gosto de dizer, para ser como que o combustível de um foguete que nos deve lançar em direção às estrelas e além, ao mistério da união de Cristo com a Igreja.

O que aconteceria, porém, se esses motores de foguete se invertessem e não mais nos apontassem para o Céu, mas para nós mesmos? Seja bem-vindo às consequências da revolução sexual. A união dos sexos é um ícone, um sinal de nossa satisfação definitiva, mas é o início de nosso declínio quando adoramos o sexo em si mesmo. Uma cultura que idolatra o sexo, sem sombra de dúvidas, perdeu de vista o divino.

Jesus disse que nós não mais nos daremos em casamento no céu (confira Mt 22, 30). Por que? Porque não mais precisaremos de sinais para nos apontar para o céu, pois já estaremos no céu. As “núpcias do Cordeiro” (Ap 19, 7) – a união de amor que sozinha pode satisfazer – será eternamente consumada.

Por sua vez, Jesus chama alguns a serem celibatários não por causa do celibato, mas “por causa do Reino” (Mt 19, 12) – ou seja, como testemunha viva da união que nos espera no Céu. Se for vivida de modo autêntico, uma vida celibatária proclama que, tão bela e maravilhosa quanto a união dos sexos é, há um amor maior, uma união maior, pela qual vale a pena “vender tudo” que temos.

É muito apropriado que os padres sejam chamados a esse grau de sacrifício. Em um mundo refém dos impulsos sexuais e, assim, idólatra do sexo, precisamos urgentemente de corajosos testemunhos do celibato sacerdotal, vivido no âmbito libertador da autêntica liberdade sexual. Assim, quando é vivido dessa forma, ele mesmo reorienta, de modo muito eficiente, nossos motores de foguete em direção aos céus.

Talvez, o chamado da Igreja ao celibato sacerdotal não seja sinal de que ela tenha a cabeça enterrada na areia, mas que esteja olhando em direção às estrelas e convidando o mundo todo – casados, celibatários ou solteiros – a fazerem o mesmo.

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Autor: Christopher West

FonteThe Cor Project

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntário nos Núcleos de Tradução, Clube de Leitura YOUCAT e também atualmente participante do Grupo de Estudo YOUCAT DATING em Brasília – DF.

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