7 coisas que todo Católico deve saber sobre o Purgatório

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O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a Igreja denomina purgatório “a purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados”. (CIC 1031). Continua o Catecismo, dizendo que por esta “purificação final” passam, após sua morte todos “os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu. Embora tenham garantida a sua salvação eterna.” (CIC 1030)

Entretanto, essa realidade é pouco conhecida ou não é bem compreendida. Por esta razão e para estar bem formados sobre o purgatório, apresentamos sete fatos que todo católico deve conhecer sobre a sua existência e a forma de ajudar concretamente as almas que estão no purgatório.


1. Se a palavra “purgatório” nem existe na Bíblia, como podemos saber que ele existe?

O termo “purgatório” não existe na Bíblia, mas a realidade, o conceito doutrinário deste lugar de purificação existe. Prof. Scott Hahn, mestre e doutor, Ph.D em Teologia Bíblica nos explica assim:

“O purgatório é uma exigência da razão e mesmo da caridade de Deus por nós. A palavra ‘purgatório’ não existe na Bíblia, foi criada pela Igreja, mas a realidade, o “conceito doutrinário” deste estado de purificação existe amplamente na Sagrada Escritura. A Igreja não tem dúvida desta realidade por isso, desde o primeiro século reza pelo sufrágio das almas do purgatório.”

O ensinamento sobre o purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus do Antigo Testamento; cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados: “Eis por que mandou fazer o sacrifício expiatório pelos falecidos, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2Mc 12, 39-45)

E é fazendo referência também a outros textos da Escritura (1Cor 3, 15; 1Pe1,7; Mt 12,31; Mt 5,26), que a Tradição da Igreja ensina, portanto que deve-se crer que existe antes do juízo um “fogo purificador”.

2. Quando a Igreja estabeleceu a Doutrina sobre o Purgatório?

São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja, já ensinava no século VI que:

“No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma Aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver cometido uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoada nem no presente século nem no século futuro (Mt 12,31). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro.” (Dial. 41,3).

Todavia é a partir do século XV, no Concílio de Florença em 1431 e no Concílio de Trento em 1563 que a doutrina do Purgatório vai sendo estabelecida com mais propriedade.  Entrar no céu e participar da glória de Deus é o anseio de cada cristão. No entanto, para que isso aconteça é preciso que a pessoa esteja totalmente purificada de seus pecados e pronta para amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e com todo o seu entendimento. Para a expiação dos pecados existe o Purgatório.

“Já que a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, a partir das sagradas Escrituras e da antiga tradição dos Padres, nos sagrados concílios e mais recentemente neste Sínodo ecumênico, ensinou que o purgatório existe e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar, o santo Sínodo prescreve aos bispos que se empenhem diligentemente para que a sã doutrina sobre o purgatório, transmitida pelos santos Padres e pelos sagrados Concílios, seja acreditada, mantida , ensinada e pregada por toda parte.” (DS 1820;1580).

3. Quais são os sufrágios 1 por meio dos quais, de acordo com a doutrina da Igreja, nós podemos ajudar as almas do Purgatório?

A essa pergunta nós respondemos: eles consistem em orações, obras de caridade, jejuns e penitências de qualquer tipo, indulgências, já que essas almas nada podem fazer por si mesmas e contam exclusivamente com a ajuda dos que estão ainda nesta vida em estado de graça. E o maior auxílio que se pode prestar a elas é a Santa Missa. O mesmo Concílio de Trento afirma em seu Cânon 3:

“Se alguém disser que o sacrifício da Missa só e de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício realizado na cruz, porém não sacrifício propiciatório; ou que só aproveita a quem o recebe e não se deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades: seja anátema.”

4. As almas do purgatório podem ser nossas intercessoras?

Esta questão foi enfrentada de maneira diferente por dois grandes doutores da Igreja: Santo Tomás de Aquino e Santo Afonso Maria de Ligório.
Santo Tomás, por exemplo, é da opinião de que as almas do Purgatório não podem rezar por nós, e é esta a opinião comum dos teólogos:

“Os que estão no Purgatório ainda não gozam da visão do Verbo, para que possam conhecer o que pensamos e falamos. Por isso, não lhes pedimos os seus sufrágios em nossas orações”. (S. Th. II-II, q. 83, a. 4, ad 3)
“Os que estão no Purgatório, embora sejam superiores a nós devido à impecabilidade, são inferiores a nós quanto às penas que sofrem. Por isso não estão em condição de orar; pelo contrário, é preciso orar por elas”. (S. Th. II-II, q. 83, a. 11, ad 3)

Santo Afonso, defende, porém, a posição contrária argumentando o seguinte:

“Pergunta-se: é útil recomendar-se às orações das almas do purgatório? Alguns dizem que as almas do purgatório não podem rezar por nós. São levados pela autoridade de Santo Tomás que afirma estarem aquelas almas em estado de expiação, e, por isso, inferiores a nós. Não se acham em condição de rezar por nós, mas, pelo contrário, necessitam de nossas orações.
Mas muitos outros doutores, como Belarmino, Sílvio, Cardeal Gotti e outros afirmam, com muita probabilidade, que se deve crer piamente que Deus manifesta-lhes nossas orações, a fim de que aquelas santas almas rezem por nós, como nós rezamos por elas. Assim se estabelecerá entre nós e elas este belíssimo intercâmbio de caridade. (…) Mas, uma coisa é não estar em estado de rezar e outra é não poder rezar. É verdade que aquelas almas santas não se acham em estado de orar. Como diz Santo Tomás, estando no lugar de expiação, elas são inferiores a nós e por isso necessitam das nossas orações. Contudo, em tal estado, bem podem rezar, porque estão na amizade de Deus. Se um pai, apesar de seu grande amor ao seu filho, conserva-o encarcerado por alguma falta cometida, o filho, em todo o caso, não está em condições de pedir alguma coisa para si mesmo. Entretanto, por que não poderá pedir pelos outros? Por que não poderá esperar ser atendido no que pede, conhecendo o afeto que lhe tem o pai? Sendo assim, as almas do purgatório, muito mais amadas de Deus e confirmadas em graça, podem rezar por nós. Mas não é costume da Igreja invocá-las e implorar sua intercessão, porque, segundo a providência ordinária, elas não têm conhecimento de nossas súplicas. Todavia, acredita-se piamente, como dissemos, que o Senhor lhes faz conhecer as nossas preces e, então, cheias de caridade não deixam de pedir por nós. Santa Catarina de Bolonha, quando desejava alcançar alguma graça, recorria às almas do purgatório e era imediatamente atendida. Até dizia que muitas graças, que não havia obtido pela intercessão dos santos, conseguia invocando as almas do purgatório” ”(Santo Afonso de Ligório, A Oração, C. I, n. 16)

Em resumo: Como a Igreja ainda não possui uma definição a esse respeito, cabe a cada fiel optar, livremente, pelo parecer teológico que considerar mais apropriado. Quem opta por pedir a intercessão das almas do Purgatório, porém, não se deve esquecer que essas almas, mais do que intercessoras, necessitam do auxílio e da caridade da Igreja militante. Mesmo se rezamos a elas, não deixemos jamais de rezar por elas.

5. Afinal, por que devemos rezar pelos fiéis defuntos?

Porque trata-se de uma obra não apenas vantajosa para os falecidos, mas também santa e salutar para os vivos. “É santa e piedosa a ideia de rezar pelos defuntos” (2Mc 12, 46.).

6.  Como se determina esse tempo no Purgatório?

Esse tempo é determinado de acordo a gravidade dos pecados cometidos e as suas consequências, que são as penas. Muitos santos tiveram a graça de Deus, como Santa Catarina de Gênova e o próprio São Francisco, de serem levados em êxtase ao purgatório; e todos são unânimes em dizer que é um lugar de grande sofrimento. Mas lá existe uma coisa que não existe no inferno, a esperança. Se as almas recebem orações daqui e as aceita, claro que esse purgatório pode ser diminuído. São os mistérios da misericórdia de Deus

7. Se posso rezar pelos fiéis defuntos é possível também se comunicar com eles?

Quem pretende provocar a manifestação de algum falecido para dele receber mensagem ou notícia pratica um ato chamado pelos antigos de necromancia, expressão que vem do grego nekrós = falecido e mantéia = adivinhação. E quem intenta comunicar-se com o além com o fim de colocá-lo a serviço do homem realiza um ato já conhecido pelos antigos como magia e proibido pela Divina Revelação:

“Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para ter comunicação com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio de seu povo”. (Lv 20, 6) 

“Que em teu meio não se encontre alguém que faça presságio, oráculos, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou evoque os mortos, pois quem pratica essas coisas é abominável a Iahweh, e é por causa dessas abominações que Iahweh teu Deus os desalojará em teu favor. Tu serás íntegro para com Iahweh teu Deus. Eis que as nações que vais conquistar ouvem oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido por Iahweh teu Deus”. (Dt 18, 10-14)

Clara e repetida é, pois, a proibição divina de evocar os falecidos. E este mandamento divino não foi revogado na Nova Aliança. Eis alguns exemplos:

“Muitos daqueles que haviam crido vinham-se confessar e revelar suas práticas. Grande número dos que se haviam dado à magia amontoavam os seus livros e os queimavam em presença de todos. E estimaram o valor deles em cinqüenta mil peças de prata”. (Atos 19, 11-20)

Posteriormente, a Igreja sempre se manteve fiel a esta rigorosa interdição divina de evocar os falecidos. No último Concílio, o Vaticano II, em 1964, a Constituição Lumen Gentium, temendo que a doutrina sobre rezar pelos fiéis defuntos pudesse dar espaço a interpretações do tipo espiritista, acrescentou ao texto do n. 49 a nota n. 2 (no site do Vaticano, n. 147), “contra qualquer forma de evocação dos espíritos“.

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NOTAS:

1 A palavra sufrágio, em linguagem eclesiástica, é um sinônimo para oração. Entretanto, quando o Concílio de Trento declara que as almas no Purgatório são assistidas pelos sufrágios dos fiéis, o sentido da palavra é mais abrangente, incluindo, de modo geral, tudo o que formos capazes de oferecer a Deus em favor daqueles que partiram desta vida.

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ORG: Por Jerônimo Lauricio

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