[Nota: o conteúdo deste artigo foi extraído do livro de Christopher West, chamado “Teologia do Corpo Explicada: um comentário sobre ‘Homem e Mulher os Criou’, de João Paulo II” (contendo todas as audiências sobre a Teologia do Corpo). Esse comentário se utiliza da tradução oficial do polonês realizada pelo especialista em João Paulo II, Dr. Michael Waldstein, que escreveu o prefácio do livro citado].


 

João Paulo II proferiu a última audiência sobre a Teologia do Corpo (TdC) em 28 de novembro de 1984 (TdC 133). Ele conclui a catequese com um breve esboço do extenso projeto que tinha acabado de completar, destacando seus objetivos, propósitos, a estrutura e o método de suas análises.

Ele afirma que toda a catequese pode ser resumida sob o seguinte título: “Amor Humano no Plano Divino” ou, mais precisamente, “A Redenção do Corpo e a Sacramentalidade do Matrimônio” (TdC 133, 1). Ele descreveu a expressão “Teologia do Corpo” como um “termo de trabalho” que situa o tema da redenção do corpo e da sacramentalidade do matrimônio num campo mais amplo. Contudo, ele afirma que “devemos imediatamente observar, na verdade, que o termo ‘Teologia do Corpo’ vai muito mais além do que o conteúdo das reflexões aqui apresentadas”. Diversos problemas (o Papa cita o sofrimento e a morte como principais exemplos) não especificamente tratados pelas catequeses situam-se no âmbito da teologia do corpo1. E João Paulo II acrescenta: “É preciso dizê-lo claramente” (TdC 133, 1).

A prioridade do Papa era, sem dúvida, apresentar a visão bíblica da encarnação sob a ótica do desejo erótico e do chamado do homem à comunhão. Como ele afirma, as palavras de Gênesis 2, 24 (os dois serão uma só carne) “estão, originária e tematicamente, na base do nosso tema.” Essas palavras confirmam, dente outros modos, “o momento em que a luz da revelação toca a realidade do corpo humano” (TdC 133, 1).

João Paulo II observa, mais uma vez, que fez essas observações a fim de enfrentar as questões levantadas pela encíclica Humanae Vitae. A reação amplamente negativa que a encíclica causou confirma tanto a importância quanto a dificuldade desses assuntos. Como todas as catequeses do Papa demonstram, esses problemas não pertencem apenas ao campo da biologia ou da medicina. Enquadrar a discussão apenas nesses termos é se deter na superfície do tema. Essas questões permanecem “em relação orgânica tanto com a sacramentalidade do matrimônio quanto com toda a problemática bíblica da Teologia do Corpo, que é centrada nas ‘palavras chave’ de Cristo” (TdC 133, 2). Consequentemente, o ciclo final de reflexões do Papa sobre a Humanae Vitae “não é artificialmente acrescentada ao conjunto, mas está unida a ele de modo orgânico e homogêneo”. De fato, aquela parte que, na disposição global, está colocada no fim, encontra-se, ao mesmo tempo, no início desse conjunto (TdC 133, 4). João Paulo II acrescenta que essa última colocação é importante do ponto de vista da “estrutura e do método”, indicando, assim, o modo como sua profunda espiral de reflexões retorna à sua origem ao encontrar seu destino.

João Paulo II está convencido de que respostas adequadas aos problemas levantados pela Humanae Vitae devem ser buscadas “na esfera da antropologia e da teologia que passamos a chamar de ‘teologia do corpo’” (TdC 133, 2). Em outras palavras, o Papa sustenta que respostas satisfatórias às perenes dúvidas do homem – e também às difíceis questões colocadas pelo mundo moderno – relacionadas ao matrimônio e à procriação devem enfocar nos aspectos “bíblicos e personalísticos” de cada uma delas.

Aspectos Bíblicos e Personalísticos

João Paulo II enfocou aspectos bíblicos a fim de situar a doutrina da Igreja na fundação da revelação divina. Tendo em vista algumas tendências que buscam desenvolver a teologia sem utilizar as Sagradas Escrituras, o Santo Padre sublinha que o progresso teológico está situado num contínuo retomar do estudo do depósito da revelação (confira TdC 133, 3) 2.

Combatendo contra o medo de alguns que suspeitavam que houvesse algum engajamento e incorporação de pensamentos modernos, João Paulo II ressaltou que a Igreja está sempre aberta para as interrogações postas pelo homem, e que se serve também dos instrumentos mais conformes à ciência moderna e à cultura de hoje (confira TdC 133, 3). Em outras palavras, se a Igreja pretende evangelizar o mundo moderno, ela deve adentrar na mentalidade do mundo moderno e apelar para ela através da apresentação das verdades imutáveis do Evangelho. Deve prontamente aceitar e refletir sobre as perguntas que homens e mulheres fazem a respeito do ensinamento da Igreja (podemos considerar que as 129 audiências de quartas-feiras, durante 5 anos, são, na verdade, uma profunda resposta da Igreja) 3.

Justificando seu argumento, o Santo Padre afirma: “Parece que, neste setor, o intenso desenvolvimento da antropologia filosófica (em particular, da antropologia que está na base da ética) encontra-se muito perto dos interrogativos suscitados pela encíclica Humanae Vitae (TdC 133, 3). João Paulo II diz até mesmo que examinar o ensinamento da Igreja com uma abordagem personalística é essencial para o autêntico desenvolvimento do homem, uma vez que a civilização moderna tende a medir o progresso com base em “coisas”, e não com base na pessoa. “A análise dos aspectos personalísticos da doutrina da Igreja… põe em evidência um apelo resoluto a medir o progresso do homem com a medida da ‘pessoa’, ou seja, daquilo que é um bem do homem enquanto homem – que corresponde à sua essencial dignidade”. Assim, a encíclica [Humanae Vitae] apresenta como problema fundamental o ponto de vista do autêntico desenvolvimento da pessoa humana; tal desenvolvimento mede-se, de fato, com a medição da ética, e não apenas da “tecnologia” (TdC 133, 3).

Tecnologia, Ética e Progresso

A tecnologia moderna proporcionou incalculáveis benefícios à humanidade. Mas a tecnologia só é um bem à medida que está a serviço do verdadeiro bem da pessoa humana. Em outras palavras, a tecnologia é responsável pela ética. Em relação ao assunto que está sendo abordado, a resposta Católica à tecnologia dos contraceptivos é que esta não está a serviço do verdadeiro bem da pessoa humana. Isso é exatamente o que a Teologia do Corpo buscou demonstrar “desde o princípio”.

Como afirma João Paulo II: “Na Humanae Vitae, o Papa Paulo VI exprimiu o que, por outro lado, já haviam afirmado muitos competentes moralistas e cientistas, mesmo não católicos, ou seja, que precisamente nesse campo tão profunda e essencialmente humano e pessoal, é preciso, antes de tudo, fazer referência ao homem enquanto pessoa, ao sujeito que decide de si mesmo, e não aos “meios” que o fazem “objeto” (de manipulações) e o “despersonalizam”. Trata-se aqui, pois, de um significado autenticamente “humanístico” do desenvolvimento e do progresso da civilização humana” (TdC 129, 2).

É nesse ponto que vemos o embate dramático entre duas irreconciliáveis visões da pessoa, da sexualidade humana e do progresso humano. Alguns dizem, enfaticamente, que a contracepção fornece uma chave (senão a chave) para resolver muitos dos problemas que impedem o progresso da civilização humana. Com isso, essas pessoas acusam a Igreja de estimular situações como a pobreza, a fome, o abuso de mulheres, o aborto e o aumento da AIDS, por causa da insistência na imoralidade da contracepção.

No entanto, qual é a causa da pobreza, da fome, do abuso de mulheres, do aborto e das doenças sexualmente transmissíveis? Acaso elas não derivam exatamente da rejeição do “grande mistério” do plano de Deus para a vida humana, inscrito em nossos corpos? Acaso não é a proclamação desse plano e o convite universal a participar dele exatamente o caminho para o autêntico desenvolvimento humano? É claro que isso não significa apenas anunciar uma mensagem. Devemos estar dispostos a nos unirmos em solidariedade àqueles que sofrem com a pobreza ou que morrem por causa da AIDS. Devemos amá-los onde quer que estejam e como quer que estejam, por causa de sua grande dignidade de homem ou mulher feito à imagem divina. Essas são as questões que estão em jogo – a verdade do amor, a dignidade da pessoa humana, o próprio significado de ser criado enquanto homem e mulher à imagem divina.

Se estiver correto o que a Igreja propõe acerca de nossa grande dignidade e do significado de nossa humanidade, a contracepção jamais poderá ser a solução para nossos problemas, mas apenas a fonte de um terrível retrocesso para a humanidade. Se o problema em questão for uma mulher grávida morando numa favela do Brasil, lutando para alimentar os filhos que ela já tem, ou uma pandemia de AIDS na África – a Igreja acredita que um retorno ao “grande mistério” do plano de Deus para homens e mulheres é a única solução real e duradoura para os problemas que enfrentamos.

Humanização e Evangelização

Como anteriormente citamos numa frase de João Paulo II, o relacionamento entre os sexos “constitui, de forma pura e simples, a trama da existência”. Assim, a dignidade e o equilíbrio da vida humana “dependem, em todo momento da história e em todo ponto de longitude e de latitude geográfica, de quem será ela para ele, e ele para ela” (TdC 43, 7). A escravidão à concupiscência é a força básica e fundamental que causa a ruptura no relacionamento entre os sexos e, portanto, na dignidade e no equilíbrio da vida humana. Dê contraceptivos às pessoas, e elas continuarão presas aos seus grilhões. Dê a elas o “grande mistério” do plano de Deus para a vida e o amor humano, como proclamado na Teologia do Corpo, de João Paulo II, e levaremos boas notícias aos pobres, libertaremos os cativos, devolveremos a visão aos cegos (confira Lc 4, 18). Colocaremos homens e mulheres no caminho de plenitude do próprio significado de seu ser e existência.

Um significado autenticamente “humanístico” do desenvolvimento e do progresso da civilização consiste precisamente nisso. Quando colocamos no coração esse hino de João Paulo II – que “Jesus Cristo revela plenamente o homem a si mesmo” – entendemos por que, para esse pontífice polaco, a humanização e a evangelização são simplesmente dois lados da mesma moeda4. É isso que a nova evangelização é e deve ser – uma proclamação e um convite universal a participar nesse “grande mistério” do plano de Deus para a vida humana. Esse grande mistério está inscrito em nossos corpos “desde o princípio”. Está inscrito na masculinidade e na feminilidade, e no chamado de “ambos” a tornarem-se “uma só carne”. E isso está definitivamente revelado no Verbo que se fez carne, na comunhão encarnada de Cristo com sua Esposa, a Igreja.

É isso que aprendemos na Teologia do Corpo de João Paulo II – a boa notícia do Evangelho está escrita na carne humana, na carne de todos, no corpo de todos. Nossas reflexões conclusivas buscarão demonstrar como essa teologia do corpo desempenha um papel indispensável na nova evangelização. De algum modo, a nova evangelização é, e deve ser, uma proclamação do Evangelho do corpo.

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Notas de Rodapé:

1 João Paulo II afirma que sua Exortação Apostólica Familiaris Consortio sublinha a direção para a progressiva realização e desenvolvimento da teologia do corpo. Poderíamos ainda acrescentar que todo o arcabouço literário de João Paulo II constitui, em certo sentido, um edifício com base em sua “adequada antropologia”, encontrada em seu primeiro grande projeto catequético.

2 João Paulo II certamente fez essa observação de modo mais enfático pelo seu próprio exemplo. Praticamente todas suas encíclicas, cartas apostólicas e outros documentos magisteriais começam com uma reflexão da Palavra de Deus.

3 Lembre-se de que seis das 135 audiências originais encontradas nos manuscritos do Papa não foram disponibilizadas.

4 Confira Phillip Egan, “Priesthood in the Teaching of John Paul II,” in The Wisdom of John Paul II (Londres: CTS Publications, 2001), p. 37.

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Autor: Christopher West

Fonte: The Cor Project

Traduzido por Tiago Veronesi Giacone – Membro da Rede de Missão do YOUCAT BRASIL, como Voluntário nos Núcleos de Tradução, Clube de Leitura YOUCAT e também participante do Grupo de Estudo YOUCAT DATING em Brasília – DF

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