A gula é, sem dúvida, um pecado. A palavra grega que dá origem a gula é gastrimargiá, que significa “loucura do estômago“. Antes de entrarmos mais profundamente no assuntos, é importante dizer que sentir prazer com a comida não é algo ruim, pois é da nossa própria natureza ter sensores gustativos, ou seja, o próprio Deus quis que sentíssemos os sabores e os prazeres com a comida. Podemos dizer que “não é gula todo e qualquer desejo de comer e beber, senão o desejo desordenado”.

As desordens espirituais não se alojam somente no nosso corpo, mas no nosso composto de corpo e alma, ou seja, afetam tanto o corpo quanto a alma. Mas como sabermos na prática se somos gulosos ou não?

São Gregório Magno aponta 5 modos da gula nos tentar. São eles:

  1. Às vezes adiantamos a hora de comer, antecipando a necessidade;
  2. Outras vezes buscamos pratos mais refinados;
  3. Outras vezes, desejamos alimentos preparados com mais esmero;
  4. Outras ainda, exageramos na quantidade da comida;
  5. Outras ainda, pecamos pela própria voracidade de um apetite sem limite.

Estes pontos acima devem ser observados com atenção, pois podem nos levar a gula. Lembrando que a gula é um desejo desordenado, uma concupiscência da carne e não apenas qualquer desejo. Querer uma comida mais refinada no dia de nosso aniversário a princípio não é errado, mas se isto chega a tomar nossa paz a ponto de dizermos ‘só como em lugares chiques’, aí sim tem um problema. O grande Gregório Magno nos aponta pontos de reflexão que podem e devem ser utilizados em nosso exame de consciência.

Com a ajuda de Santo Tomás, que comenta a obra de São Gregório, podemos observar alguns outros vícios resultantes da gula e que devemos estar atentos se existem ou não em nós:

  1. O embotamento mental por conta dos excessos de comida ou bebida (nos atrapalhar a pensar);
  2. Uma alegria tola, quando nossa razão adormece e somos conduzidos por paixões desordenadas (a embriaguez, por exemplo);
  3. O destempero verbal (quando falamos demais e sem juízo);
  4. A palhaçada (brincadeira frutos de fraqueza mental que provocam risadas);
  5. A imundice do corpo.

Como combater?

A terapia da gastrimargiá visa purificar o relacionamento das pessoas com os alimentos evitando a postura daqueles “cujo deus é o ventre”. O monge russo Inácio Branchaninov, santo da Igreja Ortodoxa, preleciona que a ascese corporal é necessária para nos tornar aptos a receber as sementes espirituais.

Para curar o vício da gula, o jejum e a abstinência são realmente necessários, mas devem ser feitos com o objetivo certo, isto é, por amor a Deus. Santo Tomás diz que o jejum nos ajuda a conter as concupiscências da carne, nos ajudar a elevar mais livremente a nossa alma à contemplação das verdades e nos ajuda a satisfazer pelos nossos pecados.

 

Referência principal:

RICARDO, Pe. Paulo. Um olhar que cura: Terapia das Doenças Espirituais. São Paulo: Canção Nova. 2016.

Deixe seu comentário