No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa. Hoje vamos conhecer um pouco de como a prática do jejum surgiu e como ela chegou até nós. 

O Papa Bento XVI em uma das suas anuais Catequeses Quaresmais, diz que podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. Ele responde que “as Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar”. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor dar a ordem de que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: «Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás» (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que «o jejum foi ordenado no Paraíso», e «o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão». Portanto, ele conclui: «O “não comas” e, portanto, a lei do jejum e da abstinência» (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98).

Vamos ver a seguir como o Jejum é observado na Antiga Aliança, na Nova Aliança e pelas primeiras comunidades cristãs. O texto de hoje nos parecerá grande, mas oportuno e necessário, se realmente desejamos explorar a profundidade dessa riqueza espiritual. Sem dúvida encontraremos ali grandes tesouros:

1. COMO ERA A PRÁTICA DO JEJUM NO ANTIGO TESTAMENTO?

No Velho Testamento, na lei de Moisés, os judeus tinham um único dia de jejum instituído: o do “Dia da Expiação” (Lv 23, 27-32), que também ficou conhecido como “o dia do jejum” (Jr 36,6) e ao qual mais tarde no Novo Testamento Paulo se referiu como “o jejum” (At 27,9). Essa é uma das práticas penitenciais da experiência religiosa do povo de Israel, como uma oportunidade de professar a fé no Deus Único e verdadeiro, e como elemento necessário para superar as provas nas quais são submetidas a fé e a confiança no Senhor. Vejamos alguns exemplos: 

Moisés o praticou  para dispor o corpo e a alma para receber a Lei de Deus  quando recebeu de Deus os Dez Mandamentos (Ex 34, 27-29); Elias jejuou antes de encontrar o Senhor no monte Oreb (I Reis, 19, 6-8); Esdras jejuou para pedir proteção de Deus em sua viagem de regresso do exílio à Terra Prometida (Esdras 8,21-23); Neemias jejuou por alguns dias, orando e lamentando pelo sofrimento do povo (Ne 1,4). O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento jejuaram (Jn 3, 9).

Privando-se de alimentos, Ester e Judite, mulheres importantes da historia do povo de Israel, reconheceram os limites da sua própria força e buscaram refúgio na força de Deus, reconhecendo que só Ele pode salvar (Est 4,3.16; Jt 8,6).

Para tornar a oração mais intensa, o povo de Israel prostra-se e renuncia a alimentar-se (2Cr 20,3; 2Mc 13,12; Dn 9,3). 

Num momento de crise o povo pede perdão e se arrepende voltando a adorar o Deus único. O profeta Joel relembra estes momento, quando diz: 

Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso COM JEJUNS, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. Quem sabe se não se voltará, e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, uma oferta de manjares e libação para o Senhor , vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, convocai um SANTO JEJUM, reuni a assembleia.  (Jl 2,12-18).

E, no entanto, mesmo na prática do jejum, como em qualquer expressão de religiosidade, pode se esconder muitos perigos. Os hebreus, se abstinham de alimento, deitavam-se no saco e na cinza, mas não cessavam de oprimir o próximo que eram severamente repreendidos. Para Deus, estas práticas de penitência eram rejeitadas. Por este motivo, o profeta Isaías denuncia a falsidade do formalismo e prega o verdadeiro jejum que Deus quer: 

Porventura, não é este O JEJUM que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (Is 58, 6-7).

No Antigo Testamento, há portanto, uma ligação íntima entre o jejum e a conversão de vida, o arrependimento dos pecados, a oração humilde e confiante, o exercício da caridade fraterna e da luta contra a injustiça, “Boa coisa é a oração com jejum e esmola com a justiça” (Tb 12,8)

2. COMO ERA A PRÁTICA DO JEJUM NO NOVO TESTAMENTO?

Na época de Jesus, alguns judeus jejuavam por devoção pessoal, como a anciã Ana, que aparece na apresentação de Jesus no tempo. Reforçava, com o jejum, a súplica a Deus para que enviasse o Messias à terra: “Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações” (Lc 2, 37). Nesta linha se encontram os discípulos de João Batista e os fariseus, alguns dos quais jejuavam duas vezes por semana (Lc 18, 12). Também Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites. Seu jejum tem um significado novo: enquanto Moisés, como vimos antes, jejuando, se prepara para receber a revelação divina, Jesus é a própria Revelação. E jejuou para se preparar bem pra sua missão: “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome.” (Mateus 4,1-2).

No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, transformado o jejum em um ritual mecânico e um espetáculo, muitas vezes para impressionar os outros, mas o seu coração estava distante de Deus:

“E, quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio como fazem os hipócritas; pois desfiguram o rosto, para que seu jejum seja percebido pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça, e lava o rosto, para que os homens não percebam que estás jejuando, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará” (Mateus 6,16-18).

O verdadeiro jejum, repete também noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se, portanto, a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia.

Num outro momento, quando  lhe perguntam por qual motivo os seus discípulos não praticam as formas de jejum que estão em uso em no judaísmo do seu tempo, Jesus responde: “Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles?” (Mc 2,19). E acrescenta: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão” (Mc 2,20). Nestas palavras encontramos o fundamento do convite à prática do jejum como sinal da  nossa participação ao acontecimento doloroso da paixão e da morte e da ressurreição de Jesus.

3. COMO ERA PRATICADO O JEJUM ENTRE OS PRIMEIROS CRISTÃOS?

As primeiras comunidades cristãs conservam os costumes judaicos do jejum, mas realizando-o com o espírito concreto de Jesus. Os apóstolos jejuam em algumas circunstâncias para preparar-se para conhecer a vontade de Deus e também para comunicar, com maior adesão ao Senhor, a graça da ordem sagrada: “Enquanto eles estavam celebrando o culto ao Senhor e jejuando, o Espírito Santo disse: ‘Reservai para mim Barnabé e Saulo, para a obra à qual os chamei’. Então, depois de ter jejuado e orado, impuseram-lhes as mãos e os despediram” (Atos 13, 2-3). Assim também fazem Paulo e Barnabé, quando nomeiam os presbíteros nas diversas igrejas: “Designaram em todas as igrejas alguns anciãos e, depois de ter orado e jejuado, confiaram-nos ao Senhor, em quem haviam acreditado” (Atos 14, 23). Paulo não se contenta com sofrer fome e sede quando as circunstâncias o exigem, mas acrescenta jejuns repetidos (2 Cor 6, 5; 11, 27).

Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do «velho Adão», e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: «O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica» (Sermo 43; PL 52, 320.332).

Depois de termos explorado toda essa riqueza, encerremos essa longa partilha de hoje, com um grande e atual ensinamento do Papa Bento XVI, que em sua mensagem para a Quaresma de 2009, nos exortou assim:

“Nos nossos dias, a prática do jejum  parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para valorizarmos o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho” (Mt 22, 34-40). 

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